quarta-feira, 26 de setembro de 2012

grilo pensante

“Grilar do grilo”
Eu sou um grilo muito maroto que gosta de muito aprontar, mas não sou um “grilo falante”; sou um grilo pensante. Se eu falo? Claro que sim, com os meus irmãos e parentes de minha comunidade. Também aprendi a ler e escrever e, pasmem, em Português, pois já morei em uma escola, mais precisamente em uma sala de aula e como sou muito inteligente, aprendi com certa facilidade; meu próximo desafio é dominar outras línguas, mas esta é outra história que qualquer dia eu conto.
Costumo dizer que todo grilo é brasileiro por causa da minha cor esverdeada com nuances amarelas. Também sou vidrado por futebol, mas meu time do coração é a seleção brasileira, pois a represento em minhas cores. Sou um grilo do bem e não gosto de violência, por isso não frequento estádios e outros lugares com muita gente; afinal, sou muito pequeno e posso ser pisoteado por humanos sem coração.
Gosto dos seres humanos, apesar de muitas vezes chegar a desprezá-los. Seres humanos são bichos difíceis! Dizem que são inteligentes, mas matam por qualquer motivo em guerras absurdas em nome da religião, honra e etnia. Frequentemente, eu leio jornais e assisto à televisão e fico assustado com o que acontece no mundo. Humanos nem sempre se entendem, muitos desconhecem o valor palavra “Fraternidade”. Até no futebol, nos estádios, onde deveria ser um momento de lazer, pessoas se confrontam. E quantas famílias destruídas entre os humanos: filhos matando pais, marido matando esposa... São atrocidades difíceis de acreditar!
Em minha comunidade isso não acontece: Grilo não sai por aí matando outro grilo. Entre nós existe respeito mútuo entre as famílias!
Mesmo assim, tenho uma verdadeira admiração por homens e mulheres que ganham a vida labutando por um mundo melhor na busca de soluções para um mundo mais justo. Admiro suas ações e seus sucessos na ciência, no direito, na política, na ajuda humanitária e em todos os campos onde suas inteligências múltiplas conseguem alcançar.  
Não vou dizer que todos meus parentes são santos. Tenho ancestrais que foram verdadeiras pragas. Lembram-se das pragas do Egito? Pois é, os gafanhotos são meus ancestrais. Verdadeiras pragas que, ainda hoje, acabam com as plantações, causando prejuízos enormes aos agricultores. Mas, deixemos esses meus parentes “do mal” de lado. Também sou parente do “louva a Deus” que é outro inseto do bem.
Embora a espécie humana acredite que só ela é provida de inteligência, asseguro que nós, insetos, somos muito mais inteligentes. Qual humano consegue suportar uma nuvem de gafanhotos ou milhares de grilos tilintando ao mesmo tempo?  Ninguém.
Meus ancestrais, os gafanhotos, são pequenos, mas com inteligência suficiente para enxergar o que o homem não consegue ver. Somos pequenos, mas deixamos qualquer humano doido.  Por isso, afirmo que “tamanho não é documento”. Esse negócio de “inteligência humana” é coisa que o homem inventou para valorizar a sua espécie.
No meu modo de pensar o mundo, até mesmos os objetos e móveis que os humanos acreditam não possuir sentimentos são passíveis de emoções devido a sua origem vegetal ou animal. Para que vocês entendam melhor o que estou pensando, vou relatar o que eu ouvi. Ninguém me contou, eu presenciei um forno velho em profunda depressão.
Estava eu pulando de um lado para outro quando ouvi alguém chorar. Não havia ninguém no local. Olhei para todos os lados e percebi que era o forno que chorava. Isso mesmo, o forno estava arrasado! Seu dono Diógenes ia trocá-lo por um mais moderno, de acordo com a reforma que fizera no sítio. Ele se sentia infeliz, desprezado, humilhado. Pulei para perto dele e escutei seu lamento:
-Esquentei... Assei... Esfriei. Em minha volta risos e festas. Eu era o centro das atenções. Amado pelos comilões, totalmente indispensável! O que mais me interessava era que o patrão me idolatrava. Ao meu redor, os violões tocavam versos que lembravam o amor. O samba rolava “solto” e eu, ali, como um louco esquentava o ambiente. Uns dançavam, outros preferiam cantar, como é o caso do meu amigo Betão, e eu, o forno que tudo sente, me sentia adorável. Eu era a peça imprescindível e por isso intocável. Mas, o tempo passou... Hoje não querem saber de mim. Virei, um traste que atrapalha. Julgam que forno não sente, mas se enganam. Estou velho, sujo, acabado e, é claro, serei trocado pelo mais jovem, moderno, eficiente. A casa passou por reforma, tudo foi modificado. Está tão bonita, mudada, mas minha história como fica? Fiz parte de suas vidas, até ouvi suas brigas, seus sonhos, suas saudades, seus prantos, a felicidade...E nada... Nada adiantou. Outro forno tomará meu lugar. Minha última chama se apagou; meu tempo aqui já se foi. O Diógenes me abandonou!
Confesso que senti pena do forno. Como os humanos são insensíveis!  Mas, a vida é assim, o tempo passa para todos. Se muitos humanos não têm respeito nem com seus próprios velhos como se importariam com um forno. Alguns humanos tratam seus velhos como se fossem tralhas que precisam ser descartadas. Uns são abandonados em asilos e outros são considerados um peso para a família. Eles esquecem que os mais velhos têm as experiências dos anos vividos, o amor incondicional a sua gente e merecem um lugar privilegiado junto aos seus; nessa fase da vida é que mais precisam de amor e proteção. Eles esquecem que todos ficarão velhos e que no mundo há a lei do retorno, tudo “o que se planta, se colhe”. Graças a Deus, nada entre humanos é unanimidade! Muitos velhinhos são tratados com carinho e apreço por seus familiares.
Como sou um grilo que gosto muito de ler, já li muito e fiquei fascinado com “O Pequeno Príncipe”. Quantas coisas aprendi com aquele livro, principalmente que somos responsáveis pelo que cativamos. Cabe a nós o dever de zelar pelo que amamos.
Depois de ouvir o lamento do forno, confesso que fiquei preocupado em não ferir a susceptibilidade de ninguém, humanos ou não... Prezo pela minha vida!
Como já dei meu “pitaco” vou saindo “de fininho”, antes que aquela vassoura velha que vive atrás da porta venha esquentar minhas costas. É outra que só obedece ao comando dos humanos. Passar bem!

2 comentários:

  1. Sinto falta, não do forno, porque não o conheci. Mas da roda de samba em volta da churrasqueira, da companhia dos amigos cantantes, pensantes e falantes! Vou te fazer um convite, grilo querido: vem passar uns tempos por cá?!

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    1. Cara amiga, não respondi antes porque não sabia de quem era, mas adorei sua resposta. Quem sabe a gente não faz uma roda de samba com nossos amigos aí de Porto Alegre. Bjs.

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