domingo, 11 de novembro de 2012

Tecendo a felicidade


Tecendo a felicidade

Na minha vida de grilo pensante, confesso que sou feliz. Feliz por morar nessa biblioteca onde posso aumentar minha cultura e escrever minhas histórias. Apesar de todas as catástrofes que existem no mundo, acredito que a felicidade existe de formas diferentes para cada pessoa. Cada ser humano vive de maneira diferente este sentimento maravilhoso que Deus colocou na terra. Uns são felizes com pouco, outros precisam de um pouco mais para viver bem com sua vida. Mas, cada pessoa é responsável por ser ou não feliz, depende das opções que ela fizer em sua vida.
De tanto observar a humanidade, cheguei à seguinte conclusão: o paraíso aqui na terra existe e é povoado por pessoas idosas que apesar da idade conservam o brilho no olhar e a vontade de ainda sonhar. Essa é a eterna juventude: viver sem perder a ternura.  Praticar esse exercício é uma arte, mas quem consegue este feito encontra a felicidade no tempo presente.
 Conheci Gregoriana quando em um sarau organizado aqui na biblioteca. Observava os poetas e escritores chegando e me deparei com ela e uma amiga que já conhecia de outros saraus, Alana. Ambas são artistas plásticas: Alana é a artista das aquarelas e Gregory, como quer ser chamada, prefere pinturas a óleo. Chamo-as de amigas porque aprendi a gostar de ambas assim que as vi. Encantei-me por Gregory pela sua amabilidade para com outros artistas que ali se encontravam. Ela dizia sempre uma palavra de otimismo e força para com os demais.
 O sarau havia transcorrido como de costume: poesias primorosas ditas por poetas anônimos, mas que são verdadeiras obras primas. Terminado o evento, ouvi quando Gregory viveram batante  convidou Alana para ir ao seu apartamento. Assim que saíram, peguei carona e me infiltrei em seu carro; não perderia aquele passeio por nada deste mundo. A curiosidade em participar do mundo de pessoas tão maravilhosas sempre me fascinou.
Pelo caminho, fiquei sabendo mais de minha nova amiga, pela conversa das duas. Concluí que Gregory é viúva de um radialista e com ele viajou por quase todos os países. Após sua morte, comprou seu apartamento e, aqui, em Guarujá, fixou residência. Ela está com oitenta e oito anos, há pouco tempo sofrera um acidente onde quebrara o fêmur e por isso anda com o auxílio de um andador. Está sempre com o motorista e uma enfermeira.
O carro parou e elas desceram. Fui junto, antes que o motorista me prendesse no carro e terminasse com minha aventura.
O lugar onde Gregory mora é fascinante! De um lado altos apartamentos e hotéis enfeitam a subida de um morro. De outro lado, o muro de contenção onde os turistas observam as águas que se quebram nas pedras e contemplem esse maravilhoso espetáculo da natureza!  O seu apartamento fica em um prédio de frente para o mar, no quarto andar.
 Minha primeira expectativa em relação a Gregory, era que aquela amabilidade e alegria do sarau se restringissem a eventos sociais e que, no aconchego de seu lar, encontrasse uma idosa senhora, sofrida e imensamente infeliz. Altamente compreensivo em uma senhora que se locomovia com andador e que precisava do auxilio de outras pessoas em suas tarefas rotineiras.
Quando a enfermeira abriu a porta, minha surpresa foi imensa.  Naquele lugar morava uma jovem senhora que levava a vida com todo o otimismo e alegria de seus oitenta e oito anos. A minha impressão ao entrar na sala era que entrara no paraíso. Na sala, quadros de todos os tamanhos e cores cobriam todas as paredes e até as portas dos quartos. Até mulheres nuas pintadas por ela emolduravam suas portas.
-Como é? Gostou do meu apartamento, Alana?- perguntou já sabendo da resposta.
-Você mora no paraíso! -disse Alana, boquiaberta. Ela ainda não havia visitado o apartamento que Gregory morava.
-Não filha, mas é quase isso. É o meu paraíso. Aqui pinto meus quadros e os distribuo por todos os espaços da casa. Os nus, normalmente não ficam muito tempo, meu filho leva de presente. – completou.
Ela riu e o seu sorriso era tão doce que me senti embevecido por ela. Olhei pela janela onde as ondas do mar pareciam bater nas janelas da sala e nas do quarto. Estonteante!
-Venha conhecer meu atelier e os demais cômodos da casa.-disse Gregory á Alana.
Acompanhei-a pelas paredes da casa, rezando para não ser notado. Em cada canto Gregory contava uma história seguida de uma contagiante risada. Para ela, tudo na vida tinha um aprendizado. Sentaram no sofá da sala em frente a uma mesa de tampo de vidro onde vários objetos pequenos, cuidadosamente organizados em divisões, me chamaram a atenção. Percebi que Alana também se impressionou. Ela percebeu o interesse da amiga:
- Esta mesa representa minha história de vida. Cada lugar por onde andei está aqui representado por um objeto. Trago na memória lembranças destes lugares e o que esqueço, essa mesa me faz recordar. É como se viajasse no tempo. Quando quero viajar em minhas lembranças é só olhar para esta mesa. Por isso sou tão feliz, tenho sempre o que recordar, mas não deixo de viver o presente. Ele é o que realmente importa. Meu passado conta a minha história, mas o meu presente retrata a minha vida agora. É hoje que quero ser feliz e ajudar quem precisa de um pouco de felicidade.
Gregory surpreendente! Admirando seus quadros, algo me chamou a atenção: alguns foram assinados por Ana e outros por Gregory.  Alana perguntou o motivo e ela respondeu: .
-Ana também sou eu. É o final de meu nome e assinava meus quadros assim, mas, um dia, resolvi mudar meu nome. Ana é um nome muito comum! Informei a todos, amigos e familiares que a partir daquela data, meu nome seria Gregory. Aos setenta anos, podia decidir como queria ser chamada. No início, meus filhos foram contra, depois concordaram. Agora, no presente, sou Gregory e assino meus quadros assim.
- Seus filhos são lindos!  Disse Alana, admirando os porta-retratos sobre os móveis.
- Já estão casados e felizes. Também tenho seis netos lindos. - completou rindo. Eu aguardo as férias para vê-los aqui. É maravilhoso!
- Você conhece o mundo todo?
-Quase. Conheço a Europa. Quando meu marido morreu, meus filhos não queriam que eu viajasse sozinha. Um dia, arrumei meu passaporte e fui a Paris. Eles só souberam quando mandei minhas fotos em frente à Torre Eiffel. ...No “Musée d’Orsay”, escorreguei e caí.
-Nossa, que transtorno! – falou Alana.
-Nem fiquei triste. Eu adorei! Fui carregada até o hospital por policiais fardados, lindos, com as despesas todas do hospital pagas pelo governo porque eu havia caído em um lugar público. Primeiro mundo! Sinto pena das pessoas daqui e do desrespeito que sofrem quando precisam de socorro médico. Sei que não posso reclamar da vida, mas sou uma exceção! A maioria não tem a quem recorrer... - uma breve tristeza apareceu em seu rosto.
-O mundo nem sempre é justo! – Alana interveio.
Gregory balançou a cabeça, afastando os maus pensamentos e falou sobre seus planos de continuar pintando. Com mais de oitenta anos, ela ainda tinha sonhos e projetos futuros.
- Na vida temos que guardar apenas os momentos felizes e ajudar os que precisam; ajudar sempre. É isso que me mantém viva. Sigo o que diz aquela música: “Ando devagar porque já tive pressa. Levo o meu sorriso porque já chorei demais...” – cantarolou baixinho, dando a sua versão aos versos da canção.
Às horas passaram voando. Era preciso sair do paraíso e retornar a minha rotina “sem graça”, mas que adquirira um novo brilho após aquela visita. Alana se despediu da amiga; o motorista a levaria para a casa. E eu, peguei carona até a biblioteca que ficava na mesma rua. Eles nem notaram minha presença.  
Fiquei pensando a semana inteira em minha nova amiga. Vocês poderão dizer que com dinheiro é fácil ser feliz. Será? Só pobre que é triste? Dinheiro nada tem haver com felicidade. É claro que facilita e possibilita ter uma vida melhor.
 Naquele dia, com Gregory, aprendi lições de vida que jamais esquecerei. A melhor idade muito tem a nos oferecer. É uma pena que quando jovem as pessoas não estejam preparadas para ouvir. Esse exemplo eu levarei em meu coração para sempre.
O meu objetivo agora é tornar a minha vida especial. Por isso, já tenho tomado algumas providências. Uma delas é escrever minhas histórias e quem sabe ajudar alguém a pensar no assunto. Fui!

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