segunda-feira, 18 de março de 2013

Sempre há uma esperança


Sempre há uma esperança!

O período de chuvas estava longe de acabar e as casas do morro, nas áreas de risco, a cada instante se tornavam mais instáveis. Todos os órgãos competentes alertavam para o perigo: Defesa Civil, Secretaria do Meio Ambiente e outros... A Defesa Civil solicitou a saída dos moradores da favela, mas muitos não saíram. O medo rondava cada rosto. Mas como sair do único lugar que tinham pra viver?
Judite também era moradora da comunidade; era uma entre tantas a lamentar a cada chuva forte que caia. O jeito era rezar e esperar que o pior não acontecesse. Tinha cinco filhos e não tinha para onde ir.
Dia D – Madrugada: 03 h :00 min. - Todos dormiam. A chuva não parava. De repente um estrondo seguido de uma avalanche de barro e árvores desceu morro abaixo, levando barracos e soterrando casas.
Judite acordou com o barulho. As crianças choravam desesperadamente. O barraco não fora destruído,  mas a porta dos fundos fora obstruída por pedras que também fecharam a saída pela frente. A água começou a entrar por entre os vãos da casa e, sem saída, subia rapidamente dentro do barraco. Judite gritava por socorro. Alguém, do lado de fora, falou em chamar ajuda. Os filhos foram colocados, por ela, na cama e depois sobre a mesa. O ar estava ficando irrespirável. A água já estava atingindo a cama.
Os minutos passavam com uma rapidez impressionante. Agora, Judite pedia a ajuda Divina. Pedia para que as crianças rezassem com ela; Jesus, com certeza, atenderia aos apelos infantis. As crianças, estranhamente, pararam de chorar. O tempo não passava. Quanto tempo estava ali, sem saber o que fazer?
Os pensamentos de Judite voaram para o passado, quando ainda não morava no morro e na mudança repentina de vida pela qual passou com sua família. Uma forma desesperada de sair de uma vida intolerável. O marido alcoólatra, os pequenos sem comida, a luta desesperada pela sobrevivência. Deixou a pequena casa onde morava em uma noite em que o marido lhe espancara na frente das crianças. Deu queixa na polícia e ela foi encaminhada para a Delegacia da Mulher; receberia a proteção da “Lei Maria da Penha”.
Resolveu não voltar para casa. Sentia medo do pior. Sem endereço, vagou pelas ruas com os cinco filhos: um no colo do maior, outro no seu próprio colo e dois sendo puxados pelas mãos de um ou de outro. Os olhos da mãe tinham que estar atentos: ora olhava um, ora outro; até encontrar um esconderijo junto a uma marquise. Foi lá que a família passou a noite.
-Filhos, não chorem. Amanhã arrumamos um lugar para nós.
O povo brasileiro é muito bom e solidário. Nem bem tinha se instalado em pedaços de papelões e um casal, penalizado, lhes trouxe o que comer.
“Deus existe” - pensou Judite. - “Pelo menos de fome, eles não morrerão”.
Judite agradeceu muito a solidariedade do casal e, no dia seguinte já estava trabalhando como “faxineira” na casa dos benfeitores. Até as crianças puderam ficar na casa, até arrumarem outro lugar para morar e quando isso aconteceu, os patrões lhes deram um dinheiro para o primeiro mês de aluguel em troca dos serviços de Judite durante o mês.
Aline e Carlos eram seus benfeitores; não eram ricos, mas viviam com conforto. Ambos trabalhavam: Aline como professora, Carlos como mecânico. Aline ainda arrumou creche e escola para os meninos para que Judite pudesse trabalhar. Foi aí que Judite voltou a acreditar que o mundo era bom.
Salvo os dias em que fora chamada pelo Juiz, Judite nunca mais viu o marido. Ele deixou a casa que era alugada e nunca mais foi visto. As crianças nunca perguntavam pelo pai, traumatizados pela cena em que viveram.
“Melhor assim”. – refletia Judite. – “Tem gente que não merece ser chamado de pai”.
E a vida seguia seu curso rotineiro. Havia dois anos da separação do casal. Dois anos de felicidade. Sim, era possível ser feliz em um barraco e sendo ajudada por pessoas bondosas.
Julinho, o mais velho, já estava com doze anos, Fernando com dez, Clara com oito, a pequena Rose com seis e Ricardo com quatro. Era muito bom ver a família toda reunida no domingo. À tarde, depois do almoço, as crianças desciam por entre as vielas sentados em papelões ou empinavam pipas. Judite prestava atenção em tudo: nos meninos e na televisão usada, comprada com muito custo.
Nestes dois anos já presenciara chuva forte, mas nada que abalasse os alicerces do morro. E agora, em pleno fim de semana, acontecia a tragédia.

Rumores de vozes, ao longe, começaram a ficar mais forte. Judite volta ao presente. A ajuda finalmente chegara. Os bombeiros pedem que as pessoas soterradas gritem alto para que possam se orientar pelas vozes. Elas gritam e agradecem a Deus.
Dentro do barraco, o ar parece faltar. De repente um som mais forte e, aos poucos, um pequeno orifício na parede da sala onde Judite está, aparece. Aos poucos, um buraco fica maior e uma mão é estendida. É a mão da vida, a mão da solidariedade! O filho menor, Ricardo, é o primeiro a sair, seguido por Clara, Rose, Fernando e Julinho. A mãe fica por último e ajuda os filhos a sair daquela catacumba. Fora alguns arranhões todos estão bem e salvos; o mesmo acontece com tantos outros soterrados, mas há também os que choram seus mortos.
Não há sol, são os pingos da chuva que os acolhem do outro lado, mas há felicidade nos olhos dos bombeiros e das pessoas que choram ao ver o milagre da vida novamente. E todos aplaudem: aplaudem os bombeiros; aplaudem a vida. Judite tenta consolar a vizinha que perdeu entes queridos. Mas, a dor é intransferível. Não há consolo! Os sobreviventes são levados para abrigos em escolas e estádios. É para lá que Judite e os filhos são levados.
É lá que ela se depara com mais um milagre. Uma legião de pessoas que entram e saem carregando mantimentos, colchões e roupas. Uma verdadeira romaria da solidariedade! O sorriso em cada rosto mostra que todos estão felizes, contentes em fazer o bem. São voluntários e trabalhadores que, de repente, compreenderam a verdadeira Fraternidade.  É o próximo que se comove com o semelhante. É a Cruzada do Amor. São os Filhos de Deus!
A que chamado, eles atenderam? Ao chamado do coração, ao chamado do amor. Entre os voluntários estão Aline e Carlos. Judite, agora, sorri. Nada está perdido. Sempre é hora de recomeçar e acreditar.
É tarde e o arco-íris no céu festeja a aliança de Deus com os homens. O sol vai sorrir amanhã. A vida volta à rotina de sempre, mas nada será como antes.


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