domingo, 25 de novembro de 2012

Liberdade...


LIBERDADE...

Liberdade existe ou é só utopia? André sempre questionou essa pergunta. Quando criança, queria ser livre para correr, pisar na grama, rolar barranco, voltar para casa sujo de lama. Não podia. A mãe não permitia e se teimasse era com o pai o acerto de contas. E que acerto... A cinta, estrategicamente pendurada no "hall" de entrada da casa, assustava. E diziam que era para sua educação!  Naqueles dias, sentia raiva dos pais, mas bastava um carinho para esquecer seus planos de vingança. Quantas vezes, ele pensou em sair de casa, mas o medo do escuro, do desconhecido e de ficar longe da mãe o fazia mudar de ideia.
 Thiago, amigo inseparável de André, fora criado solto brincando nas ruas do bairro. O campinho de futebol era o espaço que o fazia feliz. Consolava o amigo nos seus infortúnios e convencia os pais dele a liberá-lo para a “pelada” nos fins de tarde.
Assim, a infância de ambos transcorreu tranquila: um sempre ao lado do outro. É certo que André desenvolveu um sentimento de vítima e tudo parecia mais negro do que realmente era.  Esse sentimento o afastava dos amigos mais próximos. Thiago era o único que não o abandonava. 
A primeira vez que André tomou conhecimento da palavra “Liberdade” foi na escola em uma aula de História. A professora falou do quanto que os negros sofriam com as torturas e pelos sonhos de liberdade presos na garganta. André se viu um deles, ele também recebia a cinta como castigo. Naquela noite, André rezou pela princesa Isabel, a Redentora, e desejou que ela também lhe trouxesse a liberdade sonhada pelos negros. Na sua visão de menino, a sua casa era a senzala, a cinta suas algemas.  A partir daquela data, aguentou qualquer castigo heroicamente, sem choro.
André foi crescendo e a cinta foi aposentada. Era hora de agradecer à Princesa Isabel pela libertação. Os grilhões tinham desaparecidos. Fora atendido em suas súplicas.
O tempo passou e André se tornou um adolescente que despertava o olhar de admiração das meninas da escola; a todas desprezava. Mas, quando Patrícia apareceu, suas pretensões foram “pelos ares”. Sentia-se nas nuvens ao pensar na amada, mas jamais admitiu a atração mais forte. Thiago também se interessou por Patrícia e, para desespero de André, ela correspondia. Decidiu que Thiago jamais saberia de seus sentimentos e até encorajou-o a namorá-la. Sofreu em silêncio e “curtiu sua fossa”, sozinho. Aos poucos, afastou-se do amigo.   
O tempo passou e a ideia de ser totalmente livre, não lhe saia da cabeça. Tornou-se um profissional responsável, bem sucedido, que despertava admiração das mulheres. Comprou um apartamento e deixou a casa dos pais. Não sentiu remorsos nem saudades, as lembranças da infância estavam vivas em sua memória. Profissionalmente, viajou para o mundo todo, mas sentimentalmente não queria amarras, nada de vínculos sólidos. Finalmente, era livre!
O tempo foi passando, as rugas aparecendo e a indesejada aposentadoria surgiu como única alternativa ao corpo cansado. Foi morar no campo, respirar ar puro e viver sua liberdade. Foi nesse sossego bucólico que as imagens de Thiago e Patrícia voltaram às suas lembranças. Nunca mais tivera um contato com Thiago, soube por conhecidos que ele e Patrícia se casaram, tiveram dois filhos, mas André questionava que fossem felizes. Para ele, a felicidade estava ligada a liberdade e preso às algemas do casamento, Thiago nunca seria livre.
 Aposentado, sem herdeiros e sem dívidas, André se considerava uma pessoa feliz e livre. Por que, então, o passado o incomodava? Os nomes Patrícia e Thiago rondavam seus dias e isso o angustiava. Havia um vazio em seu coração, algo não resolvido pelo tempo.
Enquanto caminhava pelos campos, percebeu que o outono chegara. A paisagem estava perdendo o viço. Assim também se sentia: irremediavelmente só. Percebeu-se solitário, infeliz e preso ao passado. Saudades de Patrícia! Era preciso voltar onde ficou a sua felicidade e lutar pelo seu amor. Seu coração batia acelerado na possibilidade de encontrá-la. Era preciso retornar.
Foi ela quem abriu a porta da casa. André se emudeceu. Aquela mulher não era a Patrícia de seus sonhos. Custou para encontrar no rosto dela, os traços que tanto amara no passado. A sua Patrícia tinha o viço da primavera e não o cheiro do outono. Ele estava apaixonado pela lembrança do passado e de certa forma decepcionado. Percebeu, finalmente, que aquela era a Patrícia de Thiago, não a que ele amava. Não conseguiu falar e ela sorrindo chamou o marido:
- Thiago... Thiago. Veja quem chegou! É André, nosso amigo de infância.
Thiago veio ao seu encontro e André notou o olhar de Patrícia se iluminar ao beijar o marido, o mesmo brilho refletido estava nos olhos de Thiago. André sentiu que ali havia felicidade. Foi despertado pelo abraço do amigo:
-André, por onde andou? Sentimos sua falta esses anos todos.
Thiago estava mais velho e com as têmporas brancas, mas conservava no olhar a inquietude dos anos de adolescência. E estava imensamente feliz!
A tarde passou rápida e era madrugada quando deixou a casa. Ele sentia frio. Coisas do inverno! Mas, pela primeira vez, depois de um longo período, encontrara suas respostas. Aquele encontro mudara sua vida, sua história. Ainda havia tempo para ser feliz e acreditar no amor. O passado estava morto. A primavera surgia finalmente! 

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